"A luta é a minha vida. Continuarei a lutar pela
liberdade até o fim de meus dias.
Não há como falar da África sem falar em Mandela. Os dois se
confundem em um ideal comum, a liberdade.
Por Thais
Pacievitch
O apartheid, termo africâner que quer dizer separação, surgiu
oficialmente na África do Sul em 1944, e serve para designar a política de
segregação racial e de organização territorial aplicada de forma sistemática a
aquele país, durou até 1990. O objetivo do apartheid era separar as raças no
terreno jurídico (brancos, asiáticos, mestiços ou coloured, bantus ou negros),
estabelecendo uma hierarquia em que a raça branca dominava o resto da população
e, no plano geográfico, mediante a criação forçada de territórios reservados:
os Bantustanes.
Em 1959, com o ato de autogoverno, o apartheid alcançou o
sua plenitude quando sua população negra ficou relegada a pequenos territórios
marginais, autônomos e privados da cidadania sul africana.
Por Rainer Sousa
O líder
sul-africano Nelson Mandela foi um dos mais importantes sujeitos políticos
atuantes contra o processo de discriminação instaurado pelo apartheid, na
África do Sul, e se tornou um ícone internacional na defesa das causas
humanitárias. Nascido em 18 de julho de 1918, na cidade de Transkei, Nelson
Rolihlahla Mandela era filho único do casal Henry Mgadla Mandela e Noseki
Fanny, que integrava uma antiga família de aristocratas da casa real de Thembu.
Mesmo após ter suas posses e privilégios retirados pela
ingerência da Coroa Britânica na região, a família viveu um período de
tranqüilidade, até quando Henry Mgadla faleceu inesperadamente, em ano de 1927.
Com essa reviravolta em sua vida familiar, a mãe de Mandela se viu obrigada a
deixar seu unigênito sob os cuidados de Jongintaba Dalindyebo, parente da
família que tinha condições de zelar pela vida e a educação de Nelson Mandela.
Nesse período de sua vida, o jovem Mandela teve oportunidade
de ter uma ampla formação educacional influenciada pelos valores de sua própria
cultura e da cultura européia. Com isso, o futuro ativista político conseguiu
discernir como o pensamento colonial se ocupava em dizer aos africanos que eles
deveriam se inspirar nos “ditames superiores” da cultura do Velho Mundo. Após
passar pelas melhores instituições de ensino da época, o bem educado rapaz
chegou à Universidade de Fort Hare.
No ambiente universitário, Mandela teve oportunidade de
tomar conhecimento da luta contra o apartheid promovida pelo Congresso Nacional
Africano (CNA). Entretanto, antes de lutar contra o problema social que tomava
seu país, Nelson Mandela se voltou contra as tradições de seu próprio povo ao
não se sujeitar a um casamento arranjado. Mediante o impasse, o jovem se
refugiou na cidade de Johannesburgo, onde trabalhou em uma imobiliária e, logo
em seguida, em um escritório de advocacia.
Vivendo nesta cidade, Mandela aprofundou ainda mais seu
envolvimento com as atividades do CNA e deu continuidade aos seus estudos no
campo do Direito. No ano de 1942, com o apoio de companheiros como Walter
Sisulu e Oliver Tambo, fundou a Liga Jovem do CNA. Na década de 1950, os
ativistas aliados à Mandela resolveram realizar uma grande manifestação de
desobediência civil onde protestavam com as políticas segregacionistas impostas
pelo governo do Partido Nacional.
Essa grande manifestação política resultou na elaboração da
Carta da Liberdade, importante documento de luta onde a população negra
oficializava sua indignação. Em 1956, as autoridades prenderam Nelson Mandela e
decidiram condená-lo à morte pelo crime de traição. No entanto, a repercussão
internacional de sua prisão e julgamento serviram para que o líder ficasse em
liberdade. Depois disso, Mandela continuou a conduzir os protestos pacíficos
contra a ordem estabelecida.
Em março de 1960, um trágico episódio incitou Nelson Mandela
a rever seus meios de atuação política. Naquele mês, um protesto que tomou
conta das ruas da cidade de Sharpeville resultou na morte de vários
manifestantes desarmados. Depois disso, Nelson Mandela decidiu se empenhar na
formação do “Lança da Nação”, um braço armado do CNA. Naturalmente, o governo
segregacionista logo saiu em busca dos líderes dessa facção e, em 5 de agosto
de 1962, Mandela foi mais uma vez preso.
Após enfrentar um processo judicial, Mandela foi condenado à
prisão perpétua, pena que cumpriria em uma ilha penitenciária localizada a três
quilômetros da cidade do Cabo. Nos vinte e sete anos seguintes, Mandela, o
preso “466/64”, ficou alheio ao mundo exterior e vivia o desafio de esperar
pelo tempo em sua cela. Nessa época, consolidou uma inesperada amizade com
James Gregory, carcereiro da prisão que se impressionou com os valores e a
dignidade de seu vigiado.
Nesse meio tempo, após a desarticulação do movimento
anti-apartheid, novos movimentos de luta surgiram e a comunidade internacional
se mobilizou contra a sua prisão. Somente em 1990 – sob a tutela do governo
conciliador do presidente Frederik Willem de Klerk – Nelson Mandela foi liberto
e reconduziu o processo que deu fim ao apartheid na África do Sul. Em 1992, as
leis segregacionistas foram finalmente abolidas com o apoio de Mandela e Willem
de Klerk.
No ano seguinte, a vitória política lhe concedeu o prêmio
Nobel da Paz e, em 1994, foram organizadas as primeiras eleições multirraciais
da África do Sul. A vitória eleitoral de Nelson Mandela iniciou o expurgo das
práticas racistas do Estado africano e rendeu grande reconhecimento
internacional à Mandela. Depois de cumprir mandato, em 1999, Mandela atuou em
diversas causas humanitárias. Ainda hoje, o líder sul-africano exerce grande
papel na luta contra a AIDS.